À mesa com Francisco Seixas da Costa, o embaixador-gastrófilo

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Como se representa a mesa portuguesa no mundo? Quem melhor para nos falar do assunto do que um embaixador-gastrófilo?Francisco Seixas da Costa, para além da vasta experiência na representação de Portugal pelo mundo, é membro da direção da Academia Portuguesa de Gastronomia, autor do blogue gastronómico “Ponto Come“, e escreve artigos de crítica gastronómica nas revistas Epicur e Evasões. 

Ao longo da sua carreira foi colecionando histórias, aprimorando o gosto e o paladar crítico sobre o que lhe vem parar à mesa. As suas listas de restaurantes são cobiçadas e incentivadas, embora cada vez mais perecíveis nos dias que correm, diz.

Se é dono de um restaurante, atente ao que o embaixador diz ser a desgraça de uma casa. Se procura onde jantar ou almoçar e não tem pistas, deixe os guias de restaurantes de lado e procure por um senhor gordo e próspero.

O meu pai, para quem estar à mesa sempre constituía uma perda de tempo, costumava ter esta frase de cada vez que eu fazia uma viagem para visitar um restaurante: «Isso é uma inferioridade!» Na noite de ontem, se ele me tivesse visto andar quase 100 quilómetros para ir jantar a um restaurante perto de Tarouca, ido de Vila Real, imagino as ironias que teria de encaixar. Contudo, confesso que tenho muita pena de as não poder ouvir. (Blog Ponto Come)

AMP – Se para o seu pai, estar à mesa era uma perda de tempo e uma inferioridade, para um embaixador pode ser o inverso, imagino…

Francisco Seixas da Costa – O meu pai não gostava de estar à mesa, mas o meu avô gostava. Portanto, tenho na família diferentes maneiras de estar, de utilizar o espaço de uma refeição como elemento de convívio. O meu pai, que comia pouco e talvez por isso tenha vivido até aos 97 anos, tinha a atitude de um escasso interesse pelas coisas da mesa. O meu avô materno era muito mais gregário, no sentido de nos juntarmos à volta da mesa e ficarmos ali à conversa depois da refeição.  O sentido de estar à mesa na vida comum depende das famílias, já na vida diplomática faz parte do ritual diplomático. As pessoas que não gostem muito do prazer de estar à mesa têm de o adotar na vida diplomática. E mesmo que seja artificialmente formal. Curiosamente, no outro dia estava a dar uma aula de diplomacia e protocolo e dei-me conta de um elemento fundamental que distingue quem gosta de estar à mesa de quem não gosta. É um critério completamente empírico – tomar o café à mesa ou não. O café à mesa é o que prolonga uma refeição. As pessoas que gostam de tomar café à mesa são as que gostam de ficar.

AMP – Como se representa Portugal à mesa?

FSC – Se temos uma mesa, uma casa, uma sala suficientemente equipada para poder dar um jantar, aí a simplicidade deve ser a regra do jogo, mas dando sempre um toque português. Mas, atualmente, as embaixadas têm de ter cuidado com o que servem. Se por um lado, por interesse, nós temos de servir alguns pratos que ligam à imagem de Portugal, é preciso também muito cuidado ao servir-se produtos que, por mais identitários que sejam, podem ser agressivos ao paladar ou para determinadas culturas. Razão pela qual as embaixadas se refugiam na neutralidade gastronómica, propondo um menu que seja consensual. Por exemplo, é pouco provável que uma embaixada sirva pratos de porco pela possibilidade de haver convidados árabes ou convidados judeus. Conto-lhe uma história. Eu gosto imenso de bacalhau, e na Noruega, o meu primeiro posto, logo depois da chegada, consegui encontrar um exportador de bacalhau seco que me vendeu uma caixa de bacalhau. Fiquei deliciado. Resolvemos oferecer aos primeiros noruegueses que conhecemos um jantar de bacalhau. Foi um insucesso total… Começaram a comer e perguntaram que prato era, ao que respondi que era uma homenagem aos noruegueses porque era um prato inspirado no bacalhau que exportam para Portugal. Começo, entretanto, a vê-los afastar pedaços no prato. Porquê? O bacalhau era a comida dos tempos pobres da Noruega, era a comida que sobrevivia nas localidades mais longínquas e que podia ser guardada durante meses, durante a guerra e em situações de pobreza. Portanto, é um alimento associado a memórias negativas. Era o «para quem é, bacalhau basta» na expressão portuguesa. Nunca mais servimos bacalhau seco na Noruega. Dito isto, a lógica numa embaixada será dar um toque de produtos nacionais, coisa que se pode fazer com o vinho. As embaixadas têm um pouco esse sentido de mostra da produção nacional.

AMP – Qual é o denominador comum nas mesas das embaixadas?

FSC – O vinho do Porto é talvez o elemento mais natural em toda a embaixada portuguesa. É transversal, está muito na memória das pessoas. Digo isto com algum cuidado, mas eu já servi Mateus Rosé por ser um elemento identitário de um certo imaginário português, embora não seja um produto que veja a ser pedido frequentemente nos restaurantes aqui em Portugal.

AMP – O Ministério dos Negócios Estrangeiros tem algum caderno de normas sobre o que deve ser uma mesa portuguesa? Há pouco tempo surgiram notícias e comentários sobre avultadas despesas com baixelas/faqueiros; é um mal/gasto necessário?

FSC – As embaixadas acabam por ser uma montra dos países que representam. E uma montra privilegiada. A carreira diplomática, a vida diplomática e as embaixadas são quase sempre feitas para projetar a imagem que se quer de um país. E por vezes procura-se projetar uma imagem quase melhor do que o país é. Dou o exemplo das embaixadas no Vaticano, em Madrid ou Paris. Nós podíamos vender os móveis todos e comprar tudo do Ikea, mas há um elemento de prestígio que é difícil de explicar a algumas pessoas: há um elemento de prestígio relativamente à imagem de Portugal que é preciso manter. É preciso manter uma certa dignidade nacional e que essa dignidade passa pela utilização de determinados elementos, até de decoração e composição de uma mesa, e que têm a ver com a tradição. Se calhar, as pratas portuguesas da Ajuda podem vender-se… Podem ser colocadas num leilão e pagar a dívida. Há um património que é nosso e que tem a ver com a imagem do país. E o património não é só material, passa também pelos hábitos. É importante que Portugal faça um belo jantar na Ajuda ou em Queluz, e que isso é preciso talheres de prata, pratos da Vista Alegre, compor a mesa de forma bonita, gastar dinheiro em flores. Tudo isto faz parte.

AMP – A intimidade ou a aproximação que a partilha de uma refeição proporcionam ajuda o diplomata a conversar e a perceber melhor uma pessoa ou um assunto?

FSC – A mesa complementa ou cria um ambiente para uma conversa. Normalmente, procura-se que a mesa seja um elemento de facilitação e de criação de bom ambiente, mas nunca se deve fazer da mesa um ponto de encontro para a negociação. Não se deve estragar a refeição com questões de agenda. Dou um exemplo com que aprendi em Londres. Fui sócio de um clube londrino, o The Travellers Club, coisa que facilita encontros aos diplomatas que estão em posto em Londres. Um dia, convidei um inglês para almoçar, para falarmos de um assunto ligado à cultura, e a meio do almoço tirei do bolso um papel e abri-o. Veio um criado a correr, dizendo que, como sabia, não se podia mostrar papéis à mesa. Os clubes ingleses tradicionais evitam que se trate de negócios à mesa.

AMP – Protocolo: as regras são para se cumprir ou as regras nem sempre se devem cumprir? Pode dar um exemplo?

FSC – Há um conjunto de princípio básicos e depois há o bom senso. Os princípios básicos estão essencialmente marcados pelas regras de educação e civilidade genéricas. Depois há um conjunto de regras de bom senso, que tem a ver com os lugares à mesa, com a rotação das pessoas, e depois há a adaptação com o que são as regras locais. O protocolo tem uma vantagem. Sempre houve rituais ligados aos vários países, nomeadamente às cortes, mas cada corte tinha rituais diferenciados. A vida diplomática e a criação da diplomacia moderna fizeram com que, no fundo, haja um encontro das culturas oficiais, protocolares dos vários países. Portanto, criou-se uma espécie de mainstream de práticas que criam uma espécie de rituais de entendimento. Esses rituais de entendimento são aquilo que permite não apenas que as pessoas se sintam à vontade em quadros diferenciados, mas também que em países diferentes haja uma cultura neutra, e são no fundo as regras do protocolo internacional. Não significa que cada país não procure colocar alguns elementos da sua identidade nacional, mas ao fazê-lo tem de ter em conta que não sejam desagradáveis para quem se convida, ou não forcem demasiado os outros.

Quando era secretário de Estado, fui ao Irão e depois convidei o vice-ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros para vir a Portugal. Ele veio a Portugal e convidei-o, como é de regra, para um jantar no Palácio das Necessidades, e no dia seguinte teríamos a reunião de trabalho. Disseram que sim, que vinham mas que não queriam vinho à mesa. Mandei dizer que o vinho seria servido só às pessoas portuguesas na mesa. Recusaram. Alterei o plano inicial e fiz um pequeno-almoço de trabalho, em que naturalmente não se serve vinho. Curiosamente, sucedeu-se na mesma um incidente protocolar, mas que depois foi clarificado. A delegação iraniana era toda de homens, e a chegada de quatro senhoras que me acompanhavam foi um pouco chocante, parecendo uma espécie de provocação. Os iranianos não cumprimentam de mão as senhoras, colocam a mão no peito. Só depois de nos sentarmos é que se resolveu o assunto. Apresentei-lhes a minha chefe de gabinete, a diretora de serviço para o Médio Oriente e Magrebe, a diretora de serviços de defesa e segurança, e a diretora para as questões de União Europeia com países terceiros. Com isto perceberam que as senhoras ali presentes estavam na sua qualidade oficial, e não por escolha arbitrária e imposta para marcar uma posição. Portanto, o protocolo é bom senso, educação e a capacidade também de termos alguma flexibilidade em função dos países com que estamos a lidar.

AMP – Ao longo da carreira, há países que ensinam melhor o embaixador a ganhar essa flexibilidade?

FSC – Aprendi imenso a ser flexível e a saber correr à última hora com questões de protocolo em África e quando estive no Brasil. Mais em África do que no Brasil. Por vezes, uma pessoa que é convidada para um almoço aparece com mais um amigo. O não aparecer até é mais frequente. Cria-se a necessidade, por exemplo, de recompor mesas. Tornei-me, aliás, num grande “especialista”. Adotei a técnica de ficar fechado na sala de jantar durante cinco minutos, sem ninguém e completamente concentrado, a passear à volta da mesa, fazer eu próprio as mudanças e depois pedir às pessoas para mudar o plano inicial. Depois há uns truques. Por exemplo, é muito difícil quando há muita gente do mesmo nível de importância, e aí pode adotar-se a mesa redonda e distribuir a importância pelas várias mesas redondas. Perante uma mesa comprida e muita gente equilibrada, os donos da casa não presidem no meio da mesa mas nos topos da mesa, e distribuem-se os convidados pelo meio da mesa, usando alguns ajustes na precedência, sentando a senhora num lugar mais importante e o homem num lugar menos privilegiado, e o contrário. Isto é um truque pessoal que adotava, fazendo uma mistura que tornava ilegível o protocolo. Num casal, um dos elementos sente-se sempre bem e não fica prejudicado. É um truque se calhar discutível.

AMP – Entender um país também passa por conhecer a sua gastronomia. Poderá dizer-se que no jogo diplomático vale a observação: «Diz-me como comes, dir-te-ei quem és»?

FSC – Sim, é verdade. É interessante ver a reação das pessoas à identidade dos pratos que se servem à mesa. Isso revela o cosmopolitismo das pessoas ou a boa educação. Lembro-me de uma cena, que ainda me faz arrepiar quando penso nela, que aconteceu na Coreia. Estava em Viena nessa altura, e fui à frenteà frente de uma delegação europeia, a convite do vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Coreia. Depois de um espetáculo, houve um jantar. A tortura começou quando chegaram os pratos. Era comida típica coreana, com coisas que eu nem quero imaginar o que seriam. A certa altura, comecei a separar uma coisa no prato que me repugnava e o meu contraparte perguntou-me se não gostava, ao que respondo que estava ótimo. Então venha mais. Portanto, tive de comer o dobro daquilo que supostamente me repugnava profundamente. Há sempre um risco, especialmente na visita a alguns países, quando nos levam a um restaurante típico. É como levar um estrangeiro a uma casa de fados onde se come, por regra, não se come muito bem. Ir a um restaurante típico é sempre uma coisa muito simpática, muito divertida, e solta, mas há a probabilidade de se ser confrontado com um prato de que não se gosta e ter de o comer com grande alegria na cara é enorme. Há um “teatro” em que temos de participar, especialmente em países em que têm muito orgulho nas suas dimensões populares da cultura e da gastronomia regional. Não nos podemos furtar a isso, porque no gesto de apresentação de uma comida regional está o que é suposto ser a melhor coisa do mundo. Diria que há situações-limite, mas, nessa capacidade de sobreviver, o diplomata deve ter elasticidade e, perante um prato que não goste, ter de fazer o esforço de comer. Por exemplo, vejo-me aflito para comer salsichas, mas chego à Alemanha e tenho de comê-las.

AMP – Aquando de um evento social, daqueles em que os pobres embaixadores têm de estar inevitável e obrigatoriamente, o que lhe era mais penoso, a má comida ou a má companhia?

FSC – Esses eventos vão sendo cada vez mais penosos com a idade e à medida que a carreira vai avançando. O glamour da ocasião social para algumas pessoas pode ser no princípio da carreira. A chamada cultura do croquete é uma das coisas mais penosas da vida diplomática, mas as pessoas não se dão conta disso. Os jantares têm, especialmente, um drama. Sentamo-nos, olhamos para um lado e olhamos para outro e temos cinquenta por cento mais cinquenta por cento de probabilidades de ser uma grande chatice. Fui representar Portugal no casamento do príncipe Alberto do Mónaco, um evento muito pomposo; só isso valeu, graça ao espetáculo. Fomos uma espécie de figurantes num espetáculo. Fiquei ao lado de duas embaixatrizes de dois países bizarros, que não falavam rigorosamente nada, e, portanto, sorríamos, dizíamos good, très bon… e nada mais. Num evento que demora umas horinhas, temos de ter uma capacidade de resistência.

AMP Mas, e mais uma vez, nesses eventos o que é mais penoso, uma má refeição ou a má companhia?

FSC – Já houve jantares ou almoços em que praticamente me esqueço do que estou a comer, porque a conversa tem muita graça e as pessoas são interessantes, ficando a refeição para segundo plano. Se uma má companhia se junta com um mau jantar, é sinistro. No Zaire, estávamos num jantar com uma delegação presidida por Durão Barroso. Era um jantar business, e ao meu lado estava sentado um senhor que dizia ser responsável pela dívida externa do Zaire. Começámos a falar e até achei graça à conversa. A dada altura, o senhor para. Olha para mim com um ar translúcido, baixa a cabeça e cai-lhe a cabeça na sopa. Tinha tido um ataque epilético. Vejo uma mesa inteira em que só eu dou conta do sucedido. Chamo à atenção de um senhor que estava à minha esquerda, tento chamar a atenção para a frente, até que, a certa altura, o ministro olha com um ar displicente, e lá se levantam três ou quatro homens que substituem o homem rígido por outro senhor. Tiraram os pratos, os talheres e continuou-se com outra conversa, como se nada tivesse acontecido.

Gastrófilo: diz-se de quem gosta de comer bem. Provém do grego: gastros + philos. Uma tradução literal seria «amigo do estômago».  AMP – Como é que um diplomata se transforma num amigo do estômago?

FSC – Eu denomino-me gastrófilo, e não gastrónomo. Não sou um grande conhecedor de gastronomia, e não é falsa modéstia. Por isso mesmo, devo dizer que entre a haute cuisine e a uma cozinha mais simples, eu opto muitas vezes por esta. Sou muito mais dado a uma boa bacalhauzada ou a um bom cabrito do que propriamente a uma cozinha de fusão, a pratos de espuminhas ou daqueles em que precisamos de um microscópio em cima do prato. Podem ser muito bons e de grande qualidade, mas confesso que aprecio coisas mais simples. Gosto muito de ir a restaurantes. Fui estudar para o Porto e comecei a ir a umas casas de pasto, onde os estudantes comiam além da cantina. Vim depois para Lisboa e continuei a experimentar umas coisinhas e a achar graça ao descobrir, embora nem tivesse muito dinheiro. Depois empreguei-me e comecei com uns amigos a fazer algumas descobertas. Este vício de começar a ir a restaurantes e a alinhar umas notas sobre restaurantes, deveu-se muito à circunstância de eu e a minha mulher sermos do Norte, vivermos em Lisboa, e termos de atravessar muitas vezes o país. Depois era uma coisa de convívio. “Olha, há ali uma coisa simpática, vamos experimentar…” E a certa altura há este prazer em completar; “o que há em Castelo Branco? Nunca lá fomos…”

AMP – No fundo o seu mapa de Portugal é um mapa em restaurantes…

FSC – Sou um GPS gastronómico. Tenho um Portugal marcado de restaurantes, é verdade. E devo dizer que isto me deu imenso jeito na carreira diplomática, em particular em França, nos últimos quatro anos. A França tem imensos emigrantes portugueses e, portanto, nos encontros com as pessoas há sempre a pergunta: «De onde é?»

«Ah, senhor embaixador, sou ali de uma terriola perto de Belmonte, Valhelhas.»

«Ah, muito bem! O Luís Castro e a Fernanda do restaurante Vallécula continuam por lá? Aquele arroz de pica no chão…»

Estas referências criam um laço imediato.

«O senhor conhece?»

Eu conheço coisas nos sítios mais bizarros e, portanto, tenho sempre uma referência gastronómica que trago à conversa.

AMP – O que faz o gastrófilo percorrer tantos quilómetros?

FSC – Tenho-me feito essa pergunta a mim mesmo. Quase que arrisco dizer que não é a comida. É mais a graça de conhecer o sítio. Claro que também é experimentar um bom prato, mas conhecer um novo restaurante é como comprar um livro novo. O ato da compra do livro por vezes é mais importante do que a leitura. Abriu há pouco tempo um restaurante aqui no bairro, o Loco. Devo dizer que não me passa pela cabeça ir lá. A experiência de ir lá não me é tão interessante do que visitar uma tasca em Alenquer. Não é pelo preço, mas sim a graça de ir a um sítio. A dimensão do aspeto lúdico de estar à mesa é mais importante do que a comida. Todas as quintas-feiras, tenho um almoço num restaurante chamado Chiado, na Rua do Crucifixo, com um grupo divertidíssimo, e aqui o que conta é o prazer deste encontro. Às segundas-feiras tenho uma tertúlia à noite, em Campo de Ourique, num sítio que também não é estrela Michelin, e que também só tem a graça pelas pessoas que lá estão.

O sucesso de um restaurante nunca está garantido. Mas, depois de décadas de frequência de milhares de restaurantes, julgo saber o que faz a desgraça de uma casa. E, tal como o outro, já não tenho dúvidas e raramente me engano. (Blog Ponto Come)

 AMP – O que faz a desgraça de um restaurante?

FSC – Acho que o mau serviço é o elemento que me afasta dos restaurantes. A má qualidade reiterada da alimentação ou uma comida errática, que nuns dias está boa e noutros está má. Isso mata um restaurante. Mas valorizo imenso se há um azar e uma refeição não correu muito bem e da parte do restaurante há disponibilidade para corrigir isso. E depois há um elemento dramático, que é a questão do estacionamento. Há restaurantes a que deixei de ir à hora do almoço porque não se consegue estacionar. Nem me importo de ir mais longe se souber que posso estacionar. Percebo que deve ser terrível para um restaurante manter uma qualidade constante, por isso mesmo acho que os restaurantes devem apostar em listas curtas ou não muito longas. Cada vez mais percebo a lógica de se ter uma lista business, mais barata e orientada, ou o prato do dia ser mais barato, porque é isso que dá a sustentação contínua ao restaurante. Sou contra os menus turísticos de entrada, prato, uma bebida, sobremesa, café e custa X, até porque sabemos que vamos sempre comer mal com esses menus, e a ideia de pacote, associado a turismo de pé descalço, não é o que se pretende.

AMP – Quando escreve sobre um restaurante ou faz uma crítica, qual é o objetivo principal?

FSC – O meu objetivo principal é partilhar o sentido do prazer, que tem a ver com o ambiente, que tem a ver com a localização e o espaço em si, com o serviço, com a qualidade da alimentação e a variedade da oferta. Hoje em dia, faço uma coisa a meio caminho entre a crítica e uma espécie de leitura impressionista dos restaurantes. Digo se gosto ou não, mas não sou capaz de fazer o que os críticos gastronómicos fazem, que é uma espécie de desconstrução do prato. Disse que não sou capaz, e assumo isso à partida. Isto é como os vinhos. Se me apresentam um vinho de 4000 euros e ao lado tenho um vinho que custa 60, eu provavelmente não mereço estar a beber um vinho que custa 4000 euros, porque não sei o suficiente para diferenciar. Pretendo que o meu texto seja uma espécie de ajuda às pessoas, a um amigo. Atualmente, tenho muito cuidado quando escrevo. Só sou pago quando faço a crítica. Mas se eu vou e a coisa correu mal? Fui no outro dia a um restaurante no Norte. Correu pessimamente. Digamos que a crónica deu pancada. A diretora da publicação ligou-me. A própria revista não está habituada a isto. Expliquei que não podia só dizer bem, inclusivamente era a segunda vez que lá ia e faltava qualidade. Há uma cultura de dizer só bem. Faz-se uma crónica mais ou menos neutra e depois deixam-se dois ou três pontos em que as pessoas percebem as reticências. «Ainda tem muito para evoluir», «o serviço era um pouco solto demais»… Eu já estou nisto dos eufemismos…

AMP – As suas listas de restaurantes são muito cobiçadas. Já foi, com certeza, convidado a publicá-las.

FSC – Faço guias de restaurantes desde os anos oitenta. Faço guias de Norte a Sul e faço guias para amigos, sem qualquer interesse de natureza comercial. Um guia de restaurantes é como a pera. É a coisa mais perecível que há. No final de um ano, num guia de restaurantes, mudou muita coisa. Por isso no meu blogue Ponto Come tenho sempre grande dificuldade em pôr lá informação, porque daqui a uns tempos a informação pode não ser mais válida. Fiz um guia de Campo de Ourique com 18 restaurantes, já alguns fecharam. Mas como digo, essas listas são muito perecíveis. E depois há o receio de não estar à altura. Mas a propósito deste meu vício pelos restaurantes. A certa altura, estava a presidir a uma comissão nas Nações Unidas, com cerca de setecentas pessoas. Toca o telefone. Era um primo meu de Lisboa. «Estou em Almodôvar, onde é que almoço?» Vejo-me com 190 países à minha volta e eu a pensar em restaurantes em Almodôvar. Noutro evento, toca o telefone. Era o meu amigo Artur Santos Silva, presidente da Gulbenkian. «Ó Francisco, desculpe lá, estou na Póvoa do Varzim, está tudo fechado, onde hei de ir?» Bom, dei-lhe três opções ali à volta. 

AMP – O que fazer com tanta informação que há sobre restaurantes?

FSC – Eu uso os guias todos e, sempre que sai um guia novo, compro-o. Tenho uma técnica que usei no estrangeiro e que é imbatível. Em cidades que não se conhece, como ter a certeza de quais são os melhores restaurantes? Cruzam-se as informações dos guias e os restaurantes que forem comuns, garanto que são bons. É imbatível. Mas aqui em Portugal não funciona. Não confio muito nos guias. Acho que há um amiguismo pelas Time Out, etc., e tenho muitas dúvidas. E depois há uma coisa terrível, mas que também se passa lá fora, que é um excesso de informação sobre restaurantes e que não é minimamente valorativa. Por exemplo, no guia Boa Cama, Boa Mesa, é tudo bom. Outro guia que o Correio da Manhã publicou, e que é uma coisa monumental, tem restaurantes a mais. Nas listas que eu recolhia penso que fazia uma coisa útil. Listas de restaurantes onde há pouca oferta. Por exemplo, em Tondela; onde ir comer em Tondela? À falta de guia, olha-se em volta e pede-se um conselho a um cavalheiro que tenha duas “qualidades” cumulativas: ser gordo e ter um ar próspero.

Seixas da Costa considerou um “escândalo” o número de restaurantes portugueses distinguidos pelo Guia Michelin (14), em comparação com Espanha (169). A maioria dos inspetores é de Espanha, revelou.

AMP – Pegando na polémica do guia Michelin de 2015, o que acha que falta, se é que falta, à mesa e à gastronomia portuguesas para que sejam mais conhecidas e reconhecidas lá fora? O MNE e o Turismo de Portugal têm ou devem ter algum contributo nesse reforço?

FSC – As ações de natureza voluntarista para a promoção da gastronomia no exterior têm sempre uma eficácia limitada. Nada é melhor do que a realidade. O boca a boca é a bandeira turística, é o que funciona melhor, nomeadamente em matéria gastronómica. É-nos mais fácil defender a gastronomia portuguesa depois de alguém ter ido ao Fialho, em Évora, ou ao São Gião, em Moreira de Cónegos, e que passou a palavra. É preciso trazer as pessoas cá. Dou o exemplo dos turistas franceses. Aqui há dez anos não havia franceses nas ruas de Lisboa. Houve uma mudança qualitativa e tem a ver essencialmente com o seguinte. Os franceses tinham uma grande atração por Espanha pelo seu glamour e o romantismo que se criara, para além da qualidade objetiva da cultura espanhola. Espanha estava no alvo do turismo francês. Portugal não estava porque não era tão conhecido e os franceses não vinham passar férias à terra das concierge, e das pessoas do bâtiment que conheciam ao lado. Não era glamoroso. A circunstância de Espanha ter subido em matéria de preços, a circunstância de ter desaparecido a segurança em alguns destinos do Norte de África e o facto de Portugal se ter projetado começam a trazer franceses a Portugal. Chegam cá e encontram um país francófilo e barato, com uma cultura gastronómica que não é contraditória com a dos franceses, com gente simpática. Houve uma mudança qualitativa. Por outro lado, o senhor Hollande, ao aumentar os impostos, fez com que muitos franceses resolvessem pôr dinheiro em Portugal. Tudo isto somado mudou o cenário.

AMP – Sei que é mais amigo da mesa; em todo o caso, até onde se aventurou na cozinha?

FSC – Aventuro-me a uma sanduíche. É o meu limite. No outro dia estava sozinho sem a Gina e, à noite, estava pela Avenida Álvares Cabral, e lembrei-me de que havia um restaurante na esquina da Rua de S. Bento. Vi um lugar para estacionar e fui jantar fora sozinho. O restaurante estava vazio e comi pessimamente. Foi uma coisa tão desagradável…

AMP – Portanto, apesar da sua experiência em restaurantes e apesar de ter as suas prioridades muito bem definidas, não tem pruridos a ir a um sítio corriqueiro.

FSC – Não. Por exemplo, vou a um restaurante onde não sou levado pela gastronomia. Às vezes vou sozinho almoçar, porque os donos são meus amigos. É o Comilão, em Campo de Ourique. A frequência é toda PSD, menos eu. As paredes estão forradas com fotografias de Cavaco, de Manuela Ferreira Leite, Durão Barroso, Passos Coelho… É uma parede inteira, um oratório do PSD. Quando estava no governo, o governo era PS, ia lá muitas vezes almoçar sozinho com os jornais que não tinha conseguido ler e davam-me uma mesa imensa. Como as pessoas eram todas PDS, ninguém me abordava e estava ali nas calmas. Agora percebo porque é que eu ia lá mais vezes. Ainda não tinha pensado nisso (risadas).

 

Fotografia de Nuno Sousa Dias para o À Mesa Portuguesa

(todos os direitos reservados)


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