“No jornalismo, como em tudo, eu gosto de ser inteira, não me sirvo às postas.”
É com esta postura que Clara de Sousa se senta todos os dias à mesa das notícias para nos trazer a actualidade, e é com esse mesmo espírito que, sem maquilhagem e formalidades, põe as mãos na massa na bancada da sua cozinha.
Sãos dois amores que em nada são iguais: o amor pelo jornalismo, dirigido à comunidade, e o amor pela cozinha que acontece numa esfera mais privada, embora não menos aberta ao mundo.
Dedicação, entrega, entusiasmo e esforço são as matérias primas usadas pela jornalista nos pratos que prepara – para que sejam um reflexo de si, para que “não desiludam”. A Clara dá-nos notícias e sabores verdadeiros e sem artificialismos, porque é isso que importa e o que esperamos, ora quando nos sentamos a ouvir as últimas notícias, ora quando nos sentamos para partilhar uma refeição entre amigos e família.
À Mesa Portuguesa – Património chamado Mãe Eugénia – De que forma é que ser filha da Eugénia, uma cozinheira profissional, influenciou o seu crescimento e a pessoa que é hoje?
Clara de Sousa – Foi decisiva. Foi ela que me moldou, a vários níveis. Nos valores, passando-me o que achava ser o correcto para me tornar uma pessoa válida e inteira; nas competências, exigindo a minha entrega em todas as tarefas para que me convocava, desde arrumar a casa a ajudá-la na cozinha; na ‘desprotecção’ que me garantiu mais autonomia desde muito cedo, para tomar decisões tão simples como o que fazer para o jantar. Era uma mãe trabalhadora, uma força da natureza, e ao respirar desse ar, obviamente que cresci num contexto que foi fundamental para me tornar a mulher, a mãe e a profissional que sou hoje
AMP – O facto de ser filha da Beira litoral e de Trás-os-Montes determinou os seus gostos culinários e paladar? O que vem da sua mãe e o que lhe ficou do seu pai?
CS – Nos primeiros anos sim, mas era assim praticamente em todas as casas portuguesas, que estiveram durante décadas e décadas fechadas à influência da culinária estrangeira. Depois o Chefe Silva foi introduzindo um pouco da culinária francesa, pelas suas Teleculinárias e, hoje em dia, o mundo está na minha cozinha e a minha cozinha faz parte do meu mundo. A globalização tornou tudo possível. A chegada de produtos importados facilitou o processo e hoje tenho gostos muito ecléticos, sou uma curiosa por natureza, gosto de provar e de me aventurar por novos sabores. Penso que, mais pela minha mãe do que pelo meu pai, que pouco cozinhava, recebi desde cedo elevadíssimos padrões de qualidade, ao nível dos ingredientes, das texturas e dos sabores. É muito comum ter à minha volta pessoas a dizerem quão delicioso está um prato e eu a dizer que está aquém do que deveria estar. Sou mesmo exigente. E desde logo comigo própria.
“São muitas as receitas da minha mãe que estão nas páginas deste livro, as que tanto sucesso faziam nos muitos casamentos e baptizados que a deixavam 3 dias longe de casa. São algumas das suas “armas secretas” que nunca desiludiam ninguém.”
AMP – Quais são as suas armas secretas que nunca desiludem?
CS – São tantas. E não desiludem mesmo, sobretudo se forem feitas com enorme entrega e carinho. O tempo veio provar-me isso mesmo: o quão importante é o amor que se coloca em cada prato. Parece poesia, ou uma espécie de delírio, mas quem gosta de cozinhar certamente me compreende por já ter tido várias provas de que assim é. Eu obviamente desenvolvi outras armas secretas. Posso falar de um Gravlax, melhor que o salmão fumado, e que fazemos em casa. Muito mais barato. Muito mais saboroso. Ou de um simples Hot Sushi que agrada a quem não gosta do peixe cru do sushi normal. Mas posso falar também de uma enchilada com aquele molho aromático e arrebatador. Ou de uma facílima Tarte de Chocolate, que partilhei na página do Facebook A Minha Cozinha para o último Dia da Mãe, e que foi um sucesso. De resto, para que as receitas não desiludam, eu deixo sempre alguns conselhos, e depois as pessoas seguem-nos ou não. Por exemplo: uma tarte com um recheio fantástico, feita com massa quebrada caseira, será sempre uma tarte mediana se feita com massa de compra. Bem sei que muitas pessoas não têm paciência para fazer a massa, mas é um erro, porque é super rápida e simples, não tem nada que saber. E se podemos ter uma “Tarte Top 5” por que haveremos de ter uma “Top 50”? Dedicação. Entrega. Entusiasmo. Esforço. Tudo isto é importante para que o prato, sendo um reflexo de nós próprios, não desiluda.
AMP – Os dois livros que publicou de A Minha Cozinha, foram produzidos/cozinhados com as suas frigideiras, as suas colheres de pau já gastas, etc. Vê-se que fazem parte de si, da sua experiência na cozinha. Como vive esse espaço, a sua cozinha?
CS – Sim, são um prolongamento de mim. Não significa que não possa cozinhar com outros equipamentos, fora de casa, mas sinto sempre um certo desconforto quando isso acontece. Não são poucas as vezes que levo comigo parte do meu trem de cozinha para casa de amigos, quando sei que vou cozinhar. E sou verdadeiramente insaciável na ambição de ter novos equipamentos. Tenho de me controlar porque já tenho equipamentos no escritório, na garagem. A cozinha, que é grande, já está cheia. Mas que fazer? Há quem se perca por carros, por roupas, por gadgets informáticos. Eu fico assim com a máquina de gelados com compressor, para fazer gelados na hora, ou com a máquina de waffles que, além de linda, faz os waffles mais perfeitos que comi em toda a minha vida. Ou com a tripa seca que mando vir de fora para fazer os meus próprios enchidos. É tudo uma descoberta primeiro. Depois o aperfeiçoamento. Depois a satisfação por atingir os mais altos padrões de qualidade. É assim na cozinha, mas é assim também a nível profissional. É esse o meu esforço pessoal.
AMP – As receitas muitas vezes contam histórias. Tem alguma especial para contar?
CS – Os meus livros mostram isso mesmo. A história que me levou a cada receita. Destaco uma muito especial porque foi a que desbloqueou a energia para publicar um livro e que é uma das receitas de maior sucesso. A Mousse de Lima. Provei-a no casamento do meu querido amigo Henrique Feist e perguntei-lhe que delícia era aquela, ao que ele me respondeu que era extremamente simples. E é, de facto. Logo que pôde, o Henrique enviou-me a receita e até eu fiquei surpreendida. Comecei a fazê-la, era sempre um sucesso e decidi partilhá-la também. A partir daí, tudo mudou. Ao ponto de lhe chamarem a Mousse de Lima da Clara de Sousa. Não é minha. Nem é do Henrique. É de todos, sem ser de ninguém, porque a melhor cozinha é mesmo esta que se partilha.
AMP – Com história ou sem história, que receita melhor a identifica ou é mais simbólica para si?
CS – É difícil fazer essa escolha, mas talvez o Arroz Doce, que a minha mãe fazia a olho, que eu aprendi a fazer a olho, mas que tive de passar para o papel para o segundo livro. E aí tive mesmo de fazer pesagens. Penso que reflecte traços de personalidade fundamentais para quem está na cozinha: paciência, dedicação, generosidade. Para se fazer o melhor arroz, não se sai de ao pé dele. Tal como o risotto, precisamos de estar ali, a cuidar, sempre a mexer, para soltar a goma que será fundamental para a sua cremosidade. Não se poupa no leite, tal como não se poupa no tempo necessário para atingir o ponto de cozedura perfeito. Quando me vêm pedir uma receita de arroz doce rápido, eu digo sempre que rápido não rima com arroz doce. Esta lógica moderna de receitas em 15 ou 30 minutos veio destruir muito desse espírito necessário à cozinha, tal como à vida. Saber esperar. Não vale a pena acelerar o que não pode ser acelerado. Seja no arroz doce, seja numa massa lêveda, seja numa carne de forno perfeita, seja nas ambições que queremos concretizar nas várias facetas das nossas vidas. O tempo é fundamental.
AMP – Voltando à mesa, depois de testemunhar as histórias gastronómicas do À Mesa Portuguesa, confirmei que mais do que se come, a reunião dos amigos e família à volta da mesa é o que é importante. Para si qual é a parte melhor: a cozinha ou a companhia?
CS – Ambos. Não consigo diferenciar, porque cada um beneficia do outro. Um belo prato gera novas conversas (o que usaste, como fizeste, quanto tempo, etc); um sabor que faz estalar as papilas gustativas, leva a sensações de prazer que deixarão certamente as conversas mais animadas, e por vezes até com uns traços ‘picantes’, mais divertidas portanto! Admito que, algumas vezes, um mau prato nem estrague o clima de uma reunião de amigos/familia, mas certamente um bom prato vai melhorar muito esse convívio.
AMP – Sendo uma autora de dois livros e não sendo uma profissional da cozinha, como olha para a quantidade de livros de receitas que aparecem nas estantes das livrarias? Cozinhar e publicar livros de receitas está na moda?
CS – Acho positivo haver mais diversidade e dar às pessoas a possibilidade de escolherem. Hoje há mais livros, porque também há mais áreas de interesse, nomeadamente ao nível de alimentação alternativa, como vegetariano, macrobiótico, cozinhas internacionais. Acho óptimo. O verdadeiro teste faz-se em casa. Há receitas que depois ou não estão bem explicadas, ou não funcionam nas nossas casas. Uma pessoa experiente na cozinha quase sempre improvisa e acaba por melhorar o prato, uma inexperiente acumula frustração. Acima de tudo, o sucesso de determinado autor mede-se consoante o sucesso que as suas receitas têm nas cozinhas das pessoas que compram o seu livro. Estabelece-se uma relação de confiança. Essa é uma das coisas de que me orgulho. Faço esse esforço para simplificar procedimentos e explicar pormenores relevantes. Assinalar o que é óbvio para mim e colocá-lo no papel, porque não é óbvio para todos. As pessoas dizem-me que as minhas receitas saem-lhes sempre bem. Eu acredito que seja quase sempre. Mas se a maioria sai bem, perfeito! Que mais poderia eu desejar? O Chefe Silva, nesse campo, foi um exemplo para toda uma geração.
AMP – Ao folhear as edições 1 e 2 de A minha cozinha, ao olhar as fotografias e ler as receitas, apercebemo-nos de que há uma grande preocupação por uma naturalidade e sinceridade quer na sua forma de estar, quer na forma como cozinha. O que procura, ou do que foge, na cozinha? A cozinha é onde se pode resgatar de um certo artificialismo da televisão?
CS – Não diria resgatar de artificialismo. Na televisão, o que se acrescenta é uma postura mais concentrada, que não é artificial, é a adequada, além de maquilhagem e roupa mais formal. Na cozinha estou mais descontraída, sem maquilhagem, com roupa mais leve e com uma postura mais solta. A mais adequada também para esse espaço. Cada coisa no seu lugar. Diferentes, mas ambas verdadeiras, sem artificialismos.
AMP – “Eu tenho dois amores, Que em nada são iguais, Mas não tenho a certeza, De qual eu gosto mais” – Cozinhar e fazer jornalismo são os seus dois amores? Que tipo de satisfação lhe traz um e outro e de que forma se complementam na sua vida?
CS – Não são os únicos. Eu tenho mais ‘amores’. Também adoro carpintaria ou outros trabalhos manuais. Sendo criativa, preciso de criar. Nada me dá mais prazer. Mas o jornalismo é um amor diferente. É uma espécie de missão, é o meu foco fundamental, é uma concretização de uma realização maior que extravasa as minhas fronteiras ou os meus interesses/gostos pessoais. É dirigido à comunidade, com capacidade de transformação da vida das pessoas. E eu que o escolhi, também fui escolhida. Só o abandonaria se não me permitissem que o exercesse livremente. Se não pudesse escolher as perguntas ou os temas que considero relevantes. Se não pudesse escolher as palavras que são as adequadas para transmitir toda a informação disponível. Se fosse manietada ou censurada… Aí sim, deixaria de ser jornalista, seria uma designação, nada mais. E isso não me interessaria. No Jornalismo, como em tudo, eu gosto de ser inteira, não me sirvo às postas. Depois, no meu tempo livre, faço as outras coisas de que gosto.
AMP – Em ambas as actividades é necessário uma dose de paixão e de rigor. O rigor de concretizar uma receita é o mesmo que aplica quando escreve uma notícia?
CS – Todas as notícias exigem rigor. Nem todas as receitas exigem esse rigor, são mais adaptáveis. Nos doces não arrisco tanto, o equilíbrio dos ingredientes é mais sensível, mas nos pratos salgados podemos inventar um pouco mais. Nas notícias, inventar é uma má prática profissional. Mas a mesma frase pode ser dita por várias pessoas e, só por isso, soar diferente. Umas mais convincentes, outras menos. Umas mais graves outras mais agudas. Confiantes. Assertivas. Provocadoras até. Ou seja, isto para dizer que, no jornalismo, a mesma frase pode ter vários ‘temperos’ consoante quem a esteja a dizer. Todas com o mesmo rigor.
AMP – Quem é a Clara de Sousa jornalista e a Clara de Sousa cozinheira?
CS – São a Clara de Sousa. Uma no trabalho. Outra em casa. Muda apenas o registo de atenção, a postura, a roupa, a maquilhagem. Tudo o resto, é o mesmo.
AMP – Já tem uma comunidade de fãs na sua página de FB (mais de 85.000 fãs) que lhe requer alguma dedicação. Como faz para pesquisar e aprender mais sobre cozinha? A paixão pela culinária começa a profissionalizar-se para responder aos seus fãs?
CS – Esse caminho de aprendizagem já leva 40 anos e está sempre a evoluir. Sim é exigente, mas a primeira exigência é para com a minha família e amigos. Não partilho pratos que não tenha testado antes. Se correr bem partilho, se não, não partilho. Acontece que eu já estou naquela fase em que, só de olhar para uma receita, já percebo se ela vai funcionar ou não. Poucas vezes me tenho enganado a esse respeito. O que acontece, por causa da página, é que agora tenho de filmar e fotografar, leva um pouco mais de tempo. Mas o essencial é ter tudo organizado na bancada, fazer uma boa gestão do tempo. Colocar a máquina a filmar e pronto. Depois montar o video para o Youtube e FB, perder algum tempo a escrever a receita, estar atenta às dúvidas das pessoas para lhes responder. A página exige dedicação. Não faria sentido de outra forma. E faço tudo sozinha, filmagem, fotos, edição, tudo. Entre o iphone e o computador, faço tudo muito rapidamente. E tenho sempre trabalho adiantado, para qualquer eventualidade.
“Não me esqueci das receitas que desenvolvem a natural curiosidade das crianças pela cozinha, e que nós, enquanto mães, devemos incentivar.”
AMP – É importante saber cozinhar? Faz questão de ensinar os seus filhos a cozinhar e envolvê-los no seu mundo culinário?
CS – Penso que é importante serem autónomos a esse nível, não ficando dependentes de ninguém, nem recorrendo a comidas congeladas pré-preparadas ou a take-aways. É uma vantagem também para a conta bancária. E obriga-os a uma maior organização. O meu filho não gosta, nem quer aprender, mas a minha filha adora aventurar-se na cozinha. Obviamente que a ajudo e incentivo.
“Mãe… esta sopa está absolutamente… deliciosa! Quando te reformares tens de abrir um restaurante!” (comentário da sua filha, a propósito da sopa de tomate com ovo escalfado, em A minha cozinha 2)
AMP – Como imagina a sua reforma? Passa por estar mais tempo entre tachos e panelas?
CS – Não sei como será, mas sei que não ambiciono passar a minha reforma entre tachos e panelas, já de forma mais profissional, porque a cozinha é uma profissão muito dura, muito cansativa. Penso que me irei poupar a esse nível. Mas a minha filha ainda hoje voltou a dizer isso. Só que desta vez, incluiu-nos às duas, ‘temos de abrir’. Mas acredito que seja um entusiasmo passageiro.
AMP – O que acha da Mesa Portuguesa nos dias de hoje? De que é feita?
CS – A mesa de tradição portuguesa ainda está presente em muitas casas, sobretudo fora dos grandes centros urbanos. E consoante os locais, é importante que mantenham vivas as receitas com os produtos da região. Nas minhas referências, será sempre uma mesa com um bom cozido à portuguesa ou bacalhau cozido com grão. São os que mais me ligam às raízes.
AMP – Com papas e bolos se enganam os tolos?
CS – Sim, mas fora do contexto culinário. As papas e bolos são apenas uma força de expressão. A cozinha conquista sim, mas sem enganar. Não há nada que disfarce um mau prato.
Fotografia de Steve Stoer – da capa do livro A Minha Cozinha 1

Arroz-Doce (da Clara de Sousa)
Penso que (o Arroz-Doce) reflecte traços de personalidade fundamentais para quem está na cozinha: paciência, dedicação, generosidade. Para se fazer o melhor arroz, não se sai de ao pé dele....

